Vanderlei Faria: Vida abundante

Assistia na TV a um pregador que procurou fundamentar sua mensagem nas palavras de Jesus, como se a vida abundante prometida pelo Mestre se restringisse, única e exclusivamente, à riqueza material. A certa altura chegou a dizer: "Você, meu irmão, não fique aí sofrendo, passando necessidade, se contentando com esse carrinho velho. Tome posse, pela fé, dessa promessa, dessa vida de prosperidade e de saúde que Jesus está prometendo!". E foi por aí desafiando os crentes a tomarem posse de uma vida de prosperidade e fartura.

Você, como eu, pode não ter sequer um carrinho velho, já que até o que tinha lhe foi tirado ou perdido, o que poderia ter feito com que, ao ouvir tal disparate com nome e pose de Evangelho, ficasse deprimido consigo mesmo e revoltado com Deus por não estar "cumprindo Sua promessa" para com a sua vida, ou tivesse achado que alguma coisa estaria errada com a mensagem ouvida. Em outras palavras, se esse pregador falou ou interpretou corretamente o Texto Sagrado, então o restante da Bíblia está errado, já que todos os profetas, apóstolos e servos de Deus do passado passaram tribulações, perdas, perseguições, sofrimentos e mortes prematuras. E não é só isso, o próprio Senhor disse que passaríamos tribulações (João 16.32-33).

Não há a menor dúvida de que esse pregador está completamente equivocado, para não dizer outra coisa, em sua interpretação bíblica. Ou será que há contradições nas palavras do Senhor Jesus e nos ensinos dos apóstolos? Teria Deus de fato prometido uma vida de abundância, de fartura perene e constante dos bens materiais, de plenitude de saúde e absoluta paz na terra? Será que os outros cristãos que nos antecederam, ou aqueles que estão vivendo atualmente em países ou locais onde há perseguição e tortura dos servos de Deus não tomaram posse dessa promessa? Será que os cristãos primitivos que enfrentaram prisões, escárnio, perseguição, tortura e morte falharam ou não confiaram nessa "promessa" de abundância? Ou teriam eles vivido sem fé suficiente para alcançarem tais bênçãos?

Como nos diz o escritor de Hebreus, muitos foram os que viveram pela fé e por isso pagaram com seu próprio sangue por sua fidelidade ao Senhor, como tantos hoje que estão sofrendo em diversas partes do mundo por causa de sua fidelidade a Cristo. Se esses homens e mulheres santos e tementes a Deus não alcançaram tais "promessas" de abundância material, teriam eles falhado? Ou essa interpretação é que é fantasiosa e falha? Consideremos ainda: Quem teve vida abundante realmente? Paulo, com todos as suas doenças físicas, espancamentos, perseguições de toda a sorte, escárnio e zombaria, ou o rico da parábola contada por Jesus (rico e Lázaro)? Ou o jovem rico ao qual Jesus mandou que vendesse todos os seus bens para depois segui-lo? João Batista pregando no deserto, comendo gafanhoto com mel silvestre, ou Zaqueu, o publicano, antes de encontrar-se com Jesus, em sua coletoria?

Pedro e João e os demais que ousaram seguir a Jesus deixando tudo para trás, ou Nicodemos com toda a sua formação acadêmica e sua provável tranquilidade econômica? E o filho pródigo? Quando foi que ele experimentou a verdadeira vida abundante? Quando viveu dissolutamente gastando toda a sua herança pelo mundo afora, ou após voltar sem nada, humilhado, aos braços ternos do pai?

Será que somente ao considerarmos estes fatos já não nos damos conta de que há uma profunda e significativa distorção dos valores espirituais na pregação triunfalista e festiva dos dias atuais? Paulo interpretou corretamente as palavras de Jesus desse texto quando escreveu Filipenses 4.10-13.

Portanto, podemos afirmar, com toda a convicção, que nosso Senhor não estava se referindo à vida de abundância física e material, visto que Ele mesmo afirmou que quem não deixar tudo e tomar a sua cruz não é apto para o reino de Deus. Ora, o Senhor não seria incoerente e contraditório, dizendo que temos que deixar tudo (no sentido de prioridade e preocupação) e depois que devemos reivindicar o tudo que deixamos para trás. Além disso, o que haveremos de conquistar pelo simples fato de sermos filhos de Deus? Isto seria um contra-senso, e nosso Mestre não é incoerente e confuso em seus ensinos. Então, qual seria essa vida abundante à qual se refere nosso Senhor?

Paulo, em sua excelente aplicação em sua própria vida, não disse que tinha e podia ter qualquer tipo de direito especial, fartura, fortuna ou saúde que desejasse. Ao contrário, disse que poderia sentir-se feliz e tranquilo vivendo sob pressão e opressão, na fartura e/ou na miséria, em tudo ele estava preparado e pronto para enfrentar e viver. Em quaisquer circunstâncias ele haveria de estar tranquilo e feliz, porque sua vida estava nas mãos de Deus, o que era o mais importante para ele. Era a vida com significado, vida que valia a pena ser vivida, curtida, aproveitada. Vida abundante, porque cheia da graça e da presença divina.

Qualquer coisa que Deus lhe permitisse desfrutar, sofrimento, enfermidade, pobreza, perdas ou fartura, saúde ou qualquer outro tipo de conforto material, qualquer coisa, em quaisquer circunstâncias, Deus estaria sendo digno de ser honrado e glorificado. Deus continuava, como sempre é, fiel para com seu servo, ainda que a morte em decorrência da pregação do Evangelho fosse seu destino. O Senhor continuava digno de sua adoração. Isso é que é de fato vida abundante. É vida que exala o perfume de Cristo. É vida cheia do Espírito Santo, é vida de conformidade com a soberana vontade do Senhor, na certeza de que nada acontece por acaso e que Deus está no controle absoluto de todas as coisas que nos acontecem, mesmo quando passamos tribulações, dores, perdas e a morte prematura. Ele é fiel e estaria dando-lhe graça para sentir-se em paz e feliz a despeito das lutas e dores que lhes eram impostas pelos inimigos da cruz de Cristo. Ele estava de fato experimentando a verdadeira vida abundante prometida pelo Senhor. Vida cheia da presença divina, vida de plenitude do Espírito Santo. Isto é vida plena com Deus, cheia da alegria do Espírito.

O que realmente importa? Viver um cristianismo de abundância material e desprovido do poder e da graça de Cristo, ou viver sob pressão mas tendo o coração cheio do Espírito Santo de Deus? Talvez alguém diga: Eu quero as duas coisas. Bem, não digo que alguém não possa usufruir das duas coisas ao mesmo tempo. E não duvido que alguns dos leitores possam estar experimentando as multiformes bênçãos celestiais tanto no aspecto material como no espiritual. Entretanto, isto só é possível se tivermos primeiramente a bênção espiritual. Dessa forma, ainda que seja no pouco, nos sentiremos abastecidos e suficientemente ricos. Mas, se não tivermos a graça de Cristo no coração, nenhuma riqueza humana será suficiente para dar-nos o sentimento de gratidão a Deus pela graciosa bênção do Senhor. Por isto, a Bíblia nos diz: "Eu sou a tua porção e a tua herança no meio dos filhos de Israel" (Números 18.20). Assim disse o Senhor à tribo de Levi quando repartiu a terra de Canaã com as tribos de Israel. E nem por isso a tribo de Levi ficou com sentimento de inferioridade ao verificar que os outros tinham muito mais que eles.

Sem esse entendimento da verdadeira vida abundante nenhuma abundância material conseguirá proporcionar-nos a paz de espírito verdadeira. Porém, haverá sempre angústia e ansiedade para conseguirmos algo mais para superarmos os nossos concorrentes do sucesso. Com a graça de Cristo, o nosso pouco é tudo, ou o suficiente para nos dar a alegria de cultuar a Cristo. Sem a graça de Deus, ainda que tenhamos muitos bens materiais, sempre haverá em nós a sensação de que ainda não temos o suficiente, o que de fato será verdade, porquanto a graça de Cristo é tudo o que mais precisamos. Portanto, "Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais ele fará" (Salmos 37.4-5).



VANDERLEI FARIA

Fonte: http://www.ojornalbatista.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1981&Itemid=33

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